A dificuldade em se reduzir o tamanho do estado

Um dos motivos é este: as pessoas que concordam com a afirmativa de que o gasto governamental (em magnitude e escopo) é maior do que seria desejável não concordam sobre onde fazer cortes. Como, na elaboração orçamentária, a escolha deve ser feita a nível programático, fica bem difícil chegar a um consenso.

Uma forma de interpretar esse gráfico é a seguinte: suponha que o governo gaste todo o seus recursos com assitência social e defesa nacional. 60% da população acha que o governo deveria reduzir seu gasto agregado. Mas apenas 30% quer reduzir os gastos com assistência social, e apenas 30% quer reduzir os gastos com defesa nacional, sendo estes dois conjuntos disjuntos. Ou seja, quem quer reduzir os gastos com assistência social quer manter ou aumentar os gastos com defesa nacional, e quem quer reduzir estes gastos quer manter ou aumentar aqueles.

Agora, há uma outra interpretação, mais preocupante. Talvez muitas das pessoas concordem que a afirmativa de que estado deva diminuir seus gastos  não pensaram muito bem a respeito. Com “pensar muito bem” eu quero dizer pensar como cortar esses gastos. Quando perguntadas se o governo deve diminuir os gastos com assistência social, elas respondem que não. Quando perguntadas se o governo deve diminuir os gastos com defesa nacional, elas também dizem que não. Em assuntos bem específicos, elas não querem que o governo faça cortes. Uma contradição por parte dessas pessoas. Em nosso exemplo, em que 60% da população diz querer reduzir o tamanho do estado, poderia ser que os 30% que defende o corte dos gastos sociais são os mesmos 30% que defende o corte dos gastos com defesa. Os outros 30% que defende corte no gasto agregado não querem reduzir nenhum destes dois gastos, em particular.

Será possível que eleitores possam ser tão contraditórios? Eu não duvidaria.  Eleitores podem falhar em perceber que os impostos que tanto detestam pagar financiam os gastos públicos que desejam. Isso é particularmente possível de acontecer se houver muitas transferências intergovernamentais. Por exemplo, o sujeito paga impostos para a União, e deseja consumir bens públicos locais. Estes são financiados com transferências da União para o ente local, mas o eleitor não percebe isso, e acha que a União toma-lhe muita grana e devolve-lhe pouco em troca, gastando o seu dinheiro com mensalões e panetones.

Eu não sei se que crédito dar a essa história que acabei de contar, mas em todo o caso acho interessante pensar sobre ela, e sobre suas conseqüências. Se ela for verdade, então o fato é que uma porção ainda menor da população quer de fato um governo mais limitado. E aí, não tem jeito: o gasto público chegou para ficar. E continuará assim até que essas pessoas acreditem, realmente, que o Estado não é assim tão necessário na provisão de “bens públicos” (aspas porque digo bens públicos num sentido mais amplo do que o da teoria econômica; num sentido jurídico, talvez). A menos que essa população possa ser efetivamente convencida de que muito do que o Estado faz poderia ser feito de outras formas, essa batalha está perdida.

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Uma resposta to “A dificuldade em se reduzir o tamanho do estado”

  1. CORREÇÃO: A dificuldade em se reduzir o tamanho do estado « phCastro Says:

    […] phCastro Nem ácido, nem básico, nem neutro. « A dificuldade em se reduzir o tamanho do estado […]

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