É mesmo melhor exportar produtos de maior “fator agregado”?

O Guilherme, do Finanças Fáceis, faz um post analisando as exportações brasileiras entre 1996 e 2008. Destaque para a apresentação que ele montou, que ficou mesmo excelente. 

Lá pelas tantas, ele sugere que é melhor para o país exportar produtos de maior “fator agregado”, que seriam definidos como produtos mais complexos, que passaram por uma cadeia de processamento maior, tendo desta forma maior valor de produção.

Eu percebo que esta é uma idéia bastante recorrente e gostaria de lançar algumas dúvidas sobre a sua validade. Na minha opinião, o mais importante é olhar para o “valor agregado”.

Explico o que entendo por Valor Agregado (VA) : o VA é definido como a diferença entre o Valor da Produção (VP) e o valor dos insumos utilizados, ou Consumo Intermediário (CI).

VA = VP – CI

Esta definição não é minha, é das Contas Nacionais.

Por que é melhor usar o “valor adicionado” como critério, ao invés de olhar o “fator agregado”?

A resposta é que o valor adicionado se traduz imediatamente na renda gerada. É uma identidade contábil: o valor dos bens e serviços finais produzidos é igual à renda gerada. Faz sentido: o valor obtido com a venda de um bem é usado primeiramente para pagar os insumos utilizados em sua produção, e o restante é repartido em lucro e salários. Ou seja, esse restante é exatamente a renda gerada, que será repartida entre os fatores de produção, capital e trabalho.

Agora, vamos pensar uma situação hipotética e decidir se vale mais a pena exportar laranja ou suco de laranja.

Suponha que o preço da laranja seja de $300/ton e que o preço do suco de laranja seja de $1500/ton. O suco de laranja agrega valor à laranja e por isto vale cinco vezes mais.

Agora, isto não é toda a história: suponha também que o custo dos insumos para produzir a laranja (sementes, fertilizantes, água, inseticida, etc) seja de $100 por ton de laranja produzida, e que o consumo intermediário (de laranja, água, eletricidade, embalagem, etc) na produção de suco de laranja seja de $1000 por ton de suco de laranja produzida.

Neste caso, o valor adicionado na produção de laranja é de $300 – $100 = $200, e o valor adicionado na produção de suco de laranja é de $1500 – $1000 = $500.

“Ahá, Pedro seu idiota, nem para fazer exemplo você serve. O valor adicionado na produção de suco de laranja foi maior!”

Sim, foi maior, mas perceba que o recurso gasto também foi bem maior, 10 vezes maior para ser exato. Se você dispusesse de $1000, você iria exportar laranja ou suco de laranja? Com laranja, com $1000 de insumo você produz $3000, gerando $2000 de renda. Produzindo suco de laranja, com $1000 de insumo você produz $1500, gerando $500 de renda.

O que vale mais a pena?

Evidentemente, trata-se de um caso hipotético. Mas este caso não é necessariamente irreal. O que eu gostaria de mostrar, e penso ter mostrado, é que o fato de estar no final da cadeia produtiva não faz um produto melhor (no sentido de que produz mais renda) que outro que está no início da mesma.

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11 Respostas to “É mesmo melhor exportar produtos de maior “fator agregado”?”

  1. Bom argumento « De Gustibus Non Est Disputandum Says:

    […] valor agregado trackback Pedro Castro desmistifica o argumento do valor agregado. Cuidado ao ler. Vale a pena. O autor criticado também tem um blog interessante. Enfim, uma discussão de […]

  2. Guilherme Byrro Lopes Says:

    Caro Castro, bastante interessante sua análise e estou de pleno acordo com ela. A discussão entre “fator agregado” e “valor adicionado” pode sim ser confusa por vezes e o seu exemplo ilustra bem isso. No fundo pensamos a mesma coisa, já que na conclusão do artigo eu estou me referindo a “produtos com baixo valor agregado e baixa tecnologia”.

    O termo “fator agregado” é utilizado pelo próprio IBGE na classificação dos produtos segundo a classe de uso. A idéia do post era mostrar que ficar exportando bananas ou laranjas, se o o Brasil é mesmo mais competitivo nisso do que outros países, não há nada de errado. Os modelos de comércio internacional sugerem isso também. Mas, na minha visão (e ai cada um tem a sua), produtos com maior valor agregado (na média), tem cadeias produtivas maiores e mais fator agregado e mais tecnologia embutidas. Pode até ser que o preço final do produto seja mais alto, tenha menor valor agregado do que o insumo básico.

    Essa sua análise hipotética é bastante válida, mas como você disse, hipotética. Então, usando a mesma lógica, imagine que o custo de produçao do suco de laranja não seja $1000, mas seja $500. Ainda sim, 5x mais do que o custo de produção da laranja em si (bastante razóavel ainda não?) Nesse cenário, a renda gerada é de $2000, igual ao da laranja. Se o custo cair para $499, torna-se melhor exportar suco de laranja.

    Esse exemplo, no meu entender, é bastante válido para um indíviduo apenas, empreendedor e que tem que fazer uma escolha. Caimos na velha fórmula “lucro = receita – despesa”. Sua visao é totalmente correta, no final, vai depender mesmo de quão competitivo o país é e se realmente ele tem vantagens comparativas ou não pra exportar produto X ou Y.

    A minha grande crítica em relação às exportações é que nenhum país desenvolvido se tornou desenvolvido exportando commodities (veja a desigualdade dos países produtores de petróleo, onde a renda é bastante concentrada). O Brasil perde muito ao exportar produtos simples porque todo o VA é feito no exterior, ou seja, vai aumentar o PIB dos países no exterior e não no Brasil. Não acho que tenhamos que parar de exportar só insumos básicos, porque o Brasil tem vantagem comparativa nisso, mas falta um pouco de visão e cordenação para uma política industrial nacional.

  3. phcastro Says:

    Caro Guilherme,

    O seu último argumento torna clara qual a premissa básica da proposição “é melhor produzir produtos que estejam no final da cadeia produtiva”. Esta premissa é que o valor adicionado nas atividades da ponta final da cadeia agregam mais.

    É um argumento muito plausível, para grande parte dos casos, mas não todos. Por exemplo, cito a montagem de computadores. O processo de montar não agrega tanta coisa quanto a própria fabricação dos componentes, que é um processo anterior da cadeia.

    Mas quem é capaz de fabricar os componentes, ou ainda mais, de pesquisar e inovar para produzir componentes melhores? Certamente isso não é para qualquer um. Como poucos podem fornecer este produto, o preço do mesmo é alto e, no final das contas, o valor agregado vai ser maior.

    Parece que uma variável fundamental é, desta forma, o número de competidores, o que deve estar relacionado com a tecnologia caso existam barreiras à entrada (massa crítica de capital humano, patentes, etc).

    Naturalmente, na medida do possível empresas tenderiam a ser criadas em setores com lucros extraordinários (como nestes casos), e antes de advogar por um política industrial, é importante entender porque isto não acontece. O que eu quero dizer é que, na maior parte das vezes, o problema é estrutural e não setorial. Por exemplo, para o Brasil poderíamos mencionar o capital humano ainda baixo.

    Eu concordo com você quando você diz que depender de commoditties é um problema. Na verdade, da forma como eu vejo, é ruim depender de mais de alguns poucos produtos, seja ele básico ou manufaturado, porque neste caso há um risco alto do produto perder fortemente seu valor. Como nas finanças, pode ser bom ter uma pauta de exportações diversificadas. Mais uma vez, não sei se isto passa necessariamente por uma política industrial.

  4. Philipe M. Says:

    Essa discussão me lembra do Krugman jovem: http://infoshako.sk.tsukuba.ac.jp/~takasaki/Teaching_U/IEU/Krugman(1994).pdf.

  5. Marcos Paulo Says:

    Por favor, continuem o debate… Tá muito bom!!! Parabéns aos dois!!! Aulão de Economia Industrial…

    • phcastro Says:

      Opa Marcos, seja bem vindo. Fico feliz que tenha gostado.

      Na verdade eu nem sei se tenho muito mais a falar não, sinceramente não entendo muito de comércio internacional. Mas as vezes o dedo coça de vontade de escrever umas linhas mal traçadas hehehe.

  6. phcastro Says:

    Philipe, este link parece estar quebrado.

  7. Philipe M. Says:

    http://infoshako.sk.tsukuba.ac.jp/~takasaki/Teaching_U/IEU/Krugman(1994).pdf

    É que tinha um “.” depois do .pdf.

  8. Aulas de Economia « Nepom – Núcleo de Estudos de Política Monetária Says:

    […] mais um exemplo de que esta história de “exportar produtos de maior valor agregado” não é correta ou, no mínimo, é um argumento bem menos simples do que parece. O debate que se […]

  9. phcastro Says:

    Obrigado, Philipe. O texto do Krugman é muito bom mesmo. Só espero não estar comentendo, no post, a tal da aritmética descuidada hehehe.

  10. Luiz Mury Says:

    Caros,

    Entendo que o debate não deva se limitar ao valor adicionado em si, mas sim entre quem ele se divide. Tomando por exemplo 2 cadeias produtivas que eram fortemente exportadoras: móveis e calçados. Podemos até ter um valor adicionado maior exportando couro ou madeira bruta; entretanto, a exportação de um par de sapatos ou de um móvel impacta no desenvolvimento de indústria de insumos, renda dos trabalhadores, centros tecnológicos, escolas técnicas, logística, etc…

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