Archive for maio \30\UTC 2009

Valor adicionado e produtos básicos

sábado, 30 \30\UTC maio \30\UTC 2009

Seguindo o bom texto do Krugman indicado pelo Philipe, resolvi conferir quais são as atividades com maior relação VA / CI e VA / Ocupações. Os dados vêm das Contas Nacionais 2006. O resultado está nesta tabela.

Entre as atividades que produzem bens tradables,  que defini rapidamente como as atividades de 0101 à 0334 (deixei de fora todo o setor de serviços, a construção civil e a produção e distrituição de energia, água, esgoto e limpeza urbana), temos o seguinte top 5 VA/CI:

  1. agricultura, silvicultura e exploração vegetal (1,52)
  2. aparelhos/instrumentos médico-hospitalar, medida e óptico (1,22)
  3.  petróleo e gás natural (1,02)
  4.  produtos farmacêuticos (1,01)
  5. pecuária e pesca (0,96)

Chama a atenção que temos três atividades produtoras de produtos básicos (agricultura, pecuária e extração de petróleo (refino é outra atividade). 

O top 5 VA/Ocupações fica assim:

  1. petróleo e gás natural (R$ 894.191)
  2. minério de ferro (R$ 343.313)
  3. cimento (R$ 283.242)
  4. refino de petróleo e coque (R$ 265.809)
  5. fabricação de resinas e elastômeros (R$ 204.732)

De novo aparecem atividades que produzem produtos básicos (extração de petróleo e minério de ferro).

Bom, pode ser que as duas métricas não sejam as melhores, mas creio que servem como um ponto de partida. Parece que a associação entre produtos básicos e baixo valor agregado não é automática.

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É mesmo melhor exportar produtos de maior “fator agregado”?

quinta-feira, 28 \28\UTC maio \28\UTC 2009

O Guilherme, do Finanças Fáceis, faz um post analisando as exportações brasileiras entre 1996 e 2008. Destaque para a apresentação que ele montou, que ficou mesmo excelente. 

Lá pelas tantas, ele sugere que é melhor para o país exportar produtos de maior “fator agregado”, que seriam definidos como produtos mais complexos, que passaram por uma cadeia de processamento maior, tendo desta forma maior valor de produção.

Eu percebo que esta é uma idéia bastante recorrente e gostaria de lançar algumas dúvidas sobre a sua validade. Na minha opinião, o mais importante é olhar para o “valor agregado”.

Explico o que entendo por Valor Agregado (VA) : o VA é definido como a diferença entre o Valor da Produção (VP) e o valor dos insumos utilizados, ou Consumo Intermediário (CI).

VA = VP – CI

Esta definição não é minha, é das Contas Nacionais.

Por que é melhor usar o “valor adicionado” como critério, ao invés de olhar o “fator agregado”?

A resposta é que o valor adicionado se traduz imediatamente na renda gerada. É uma identidade contábil: o valor dos bens e serviços finais produzidos é igual à renda gerada. Faz sentido: o valor obtido com a venda de um bem é usado primeiramente para pagar os insumos utilizados em sua produção, e o restante é repartido em lucro e salários. Ou seja, esse restante é exatamente a renda gerada, que será repartida entre os fatores de produção, capital e trabalho.

Agora, vamos pensar uma situação hipotética e decidir se vale mais a pena exportar laranja ou suco de laranja.

Suponha que o preço da laranja seja de $300/ton e que o preço do suco de laranja seja de $1500/ton. O suco de laranja agrega valor à laranja e por isto vale cinco vezes mais.

Agora, isto não é toda a história: suponha também que o custo dos insumos para produzir a laranja (sementes, fertilizantes, água, inseticida, etc) seja de $100 por ton de laranja produzida, e que o consumo intermediário (de laranja, água, eletricidade, embalagem, etc) na produção de suco de laranja seja de $1000 por ton de suco de laranja produzida.

Neste caso, o valor adicionado na produção de laranja é de $300 – $100 = $200, e o valor adicionado na produção de suco de laranja é de $1500 – $1000 = $500.

“Ahá, Pedro seu idiota, nem para fazer exemplo você serve. O valor adicionado na produção de suco de laranja foi maior!”

Sim, foi maior, mas perceba que o recurso gasto também foi bem maior, 10 vezes maior para ser exato. Se você dispusesse de $1000, você iria exportar laranja ou suco de laranja? Com laranja, com $1000 de insumo você produz $3000, gerando $2000 de renda. Produzindo suco de laranja, com $1000 de insumo você produz $1500, gerando $500 de renda.

O que vale mais a pena?

Evidentemente, trata-se de um caso hipotético. Mas este caso não é necessariamente irreal. O que eu gostaria de mostrar, e penso ter mostrado, é que o fato de estar no final da cadeia produtiva não faz um produto melhor (no sentido de que produz mais renda) que outro que está no início da mesma.

Autonomia universitária

sábado, 23 \23\UTC maio \23\UTC 2009

Argumento pela autonomia universitária. 

Em especial, me chamou atenção este trecho, da resenha que eu recebi por e-mail (dica: se você gosta de economia, cadastre-se neste serviço fornecido pela NBER).

European universities required to pay the same amount to all faculty members with the same seniority and rank have an average Shanghai ranking of 213. Universities free to pay faculty as they see fit have an average ranking of 322. Universities free to select undergraduate students as they see fit have a Shanghai ranking 156 points higher than those in which the government determines who will attend.  

Sobre a mudança na rentabilidade da poupança

terça-feira, 12 \12\UTC maio \12\UTC 2009

O juros da poupança possui um piso definido por lei, de 6% ao ano. Sabemos que este tipo de regulamentação tende a gerar distorções no mercado. Agora que o governo percebeu isto, quer flexibilizar este piso, tornando-o um percentual da Selic. Ok, não é bem uma liberalização, mas é muito mais razoável do que essa coisa que nós temos.

O que a oposição faz? Mistura alhos com bugalhos e diz que Lula é o novo Collor.  Tá, o episódio do mensalão também não ficou muito bem esclarecido para mim, mas fazer analogia da mudança nas regras da poupança com o confisco da mesma é muito, muito desonesto. Mudar as regras de rentabilidade não é igual ao confisco, assim como estabelecer um limite de velocidade é diferente de o governo tomar os automóveis de todo mundo.

Será mesmo mais eficiente tributar bens de demanda inelástica?

quinta-feira, 07 \07\UTC maio \07\UTC 2009

Renato explica o porque produtos essenciais (como alimentos e remédios) teriam uma carga tributária mais elevada. Resumindo, a justificativa é que, como os bens essenciais tem demanda inelástica (pois os consumidores não podem reduzir muito o consumo deste bem), o aumento dos preços devido ao estabelecimento do imposto tem um efeito menor sobre a redução da quantidade demandada do que seria o caso caso a demanda fosse elástica. A conclusão é que a ineficiência gerada pela tributação de bens essenciais é menor do que a causada pela tributação de bens supérfluos. 

Gostaria de argumentar que este efeito não é tão claro assim, ou seja, é incerto se a tributação de bens essenciais é mesmo mais eficiente do que a tributação de bens supérfluos. 

…….

Quando o governo estabelece um imposto sobre o bem X, este bem fica mais caro para os consumidores (ΔPx>0) e a quantidade demandada dele cai (ΔQx<0). O gasto total do consumidor com o bem  X é dado por 

G = Px * Qx  ,

e a variação no gasto total com o bem, após o imposto, pode ser aproximada por:

ΔG = (ΔPx)*Qx + (ΔQx)*Px  .

Note que o primeiro termo da equação é positivo e o segundo é negativo. Isto nos diz que o gasto do camarada com o o bem X após o imposto pode aumentar ou diminuir, dependendo das magnitudes de ΔPx e ΔQx. 

A elasticidade da demanda é definida como a razão entre variação percentual na quantidade demandada de um bem quando seu preço aumenta 1%, ou seja, é dada por

Ed    =   [ (ΔQx)/Qx ] / [ (ΔPx)/Px ]   .

Usando a definição de elastividade,  levando em consideração que a elasticidade da demanda é negativa (Ed<0 , pois o consumidor compra menos de um bem quando seu bem aumenta), e com um pouquinho de algebra, poderíamos escrever a equação de variação no gasto como

ΔG = [ (ΔPx)*Qx ]* ( 1 – |Ed| )

Em que |Ed| é o valor absoluto da elasticidade da demanda, que nos diz se a demanda é elástica (|Ed| >1) ou inelástica (|Ed| < 1).

Assim, podemos observar que, se o governo estabelecer um imposto sobre um bem essencial, cuja demanda é inelástica, observaríamos um aumento no gasto com este bem por parte dos consumidores. Este aumento acontece porque a redução na quantidade comprada é proporcionalmente menor ao aumento no preço.

Ok, mas e daí?

Acontece que o nosso camarada não consome apenas o bem X e assim, quando o gasto do cara com este bem aumenta, ele deve reduzir os gastos com outros bens (digamos, Y). A menor demanda por Y faz com que o excedente total neste mercado se reduza , como pode ser visto na figura abaixo:

 

Com a redução da renda disponível para gastar com o bem Y, a demanda pelo bem Y cái. No novo equilíbrio, percebe-se uma redução do excedente total neste mercado, que na figurada é dado pela área cinza

Com a redução da renda disponível para gastar com o bem Y, a demanda pelo bem Y cái. No novo equilíbrio, percebe-se uma redução do excedente total neste mercado, que na figura é dado pela área cinza

 

Analogamente, pode-se mostrar que, se a demanda pelo bem X for elástica, o gasto total com este bem se reduz e assim sobra mais dinheiro para ser gasto com o bem Y. O aumento da demanda por Y faz o excedente total neste mercado aumentar, o que também pode ser verificado na figura acima, se considerarmos que a demanda vai de D2 para D1.

A conclusão final é que, se o governo estabelece um imposto sobre um bem inelástico, o excedente gerado neste mercado vai cair menos do que aconteceria se o bem fosse elástico. Mas isto não quer dizer, necessariamente, que o efeito final de um imposto sobre bens de demanda inelástica seja menos distorcivo. Como vimos, a redução no excedente também se manifesta em outros mercados; em particular, se o bem tributado tiver demanda inelástica, haverá redução do excedente também em outros mercados, ao passo que se a demanda for elástica, haverá um aumento do excedente nos outros mercados que compensará em parte o maior peso morto observado no mercado do bem tributado.

A questão que fica então é: qual o efeito final disto tudo? É melhor tributar bens essenciais ou supérfluos? Alguém aí já fez esta conta?

O concurso mais concorrido de todos

quarta-feira, 06 \06\UTC maio \06\UTC 2009

35 mil candidatos por vaga!

PS: confesso que eu não comparei este número com o de nenhum outro concurso, mas desta vez eu me dei este luxo hehe.

Saci passa para medicina

terça-feira, 05 \05\UTC maio \05\UTC 2009

Muito bom! Direto do “The Onion” brasileiro.

Saci passa para medicina pelo sistema de cotas

Beneficiado pelo sistema de cotas para negros e para deficientes nas universidades públicas, o Saci Pererê foi aprovado para medicina. A soma das duas reservas de vaga tornou Saci um candidato praticamente imbatível no vestibular.

Saci rebateu as críticas de que o sistema de cotas é injusto, ainda mais quando permite a acumulação de benefícios. “Não sou de tirar vantagem. Eu nunca passei a perna em ninguém. Até porque se eu passar eu caio.”, disse Saci.

Vida longa ao Sensacionalista.

^^