Archive for abril \30\UTC 2009

Salário mínimo contra a crise?

quinta-feira, 30 \30\UTC abril \30\UTC 2009

Da carta de conjuntura do Ipea:

Conforme será analisado na subseção Comércio, o nível de vendas no varejo também mostrou recuperação em janeiro. A este respeito, vale destacar a importância dos programas de transferência de renda por parte do governo. Num ambiente onde a inflação provavelmente não será problema (ver seção Inflação), o aumento real no valor do salário mínimo, assim como do Programa Bolsa Família, entre outros, garantirá aos consumidores de baixa renda um ganho efetivo de poder de compra, o que será fundamental para a sustentação do nível de consumo – neste caso com peso maior dos bens não-duráveis – durante o ano.

Uma pargunta: será que se pode afirmar que o efeito de um aumento real do salário mínimo é este? Se  a rigidez de preços e salários for em grande parte responsável pelos ciclos econômicos, como propõe os novo-keynesianos, este aumento do salário real, ao dificultar ainda mais o equilíbrio no mercado de trabalho, não poderia acelerar a dinâmica de aumento do desemprego e, com isto, das deterioração das expectativas dos consumidores?

Cartões Corporativos

quarta-feira, 29 \29\UTC abril \29\UTC 2009

Gasto com Cartões Corporativos cresce em 2009, passado o escândalo.

No Portal Transparência é possível conferir como anda o gasto com esses cartões, o que é bem bacana.No gráfico abaixo, temos a evolução dos pagamentos (inclui saques) efetuados.

Para 2002 os dados originais só estão disponíveis a partir de maio; para 2009, até março. Para ambos os anos, os valores foram ajustados linearmente de modo a estimar o valor que seria observado caso o ano cheio (janeiro à dezembro) fosse observado.

Para 2002 os dados originais só estão disponíveis a partir de maio; para 2009, até março. Para ambos os anos, os valores foram ajustados linearmente de modo a estimar o valor que seria observado caso o ano cheio (janeiro à dezembro) fosse observado.

Nota-se que, de fato, houve um aumento muito grande nos gastos com Cartões Coporativos. Serão estes gastos justificados? O que dizer quando o portador de maior gasto em 2009 (até agora) praticamente só sacou dinheiro, com periodicidade quase religiosa, e quase sempre no montante exato de R$ 800, 00 ? 

A burocracia é uma forma de organização na qual o controle é fundamental, e a forma mais tradicional de controle é o por processo (em contraposição ao por resultado). O controle por processo consiste, grosso modo, no estabelecimento anterior de procedimentos que devem necessariamente ser observados. No entanto, normalmente há um descompasso entre os procedimentos que foram estabelecidos e os que deveriam ser adotados para se alcançar um resultado eficiente (minimizando custos, maximizando benefícios). Um exemplo é a Lei de Licitações, que defini um processo de compras lento e que inúmeras vezes chega a ser um entrave para que o setor público faça boas aquisições (por exemplo, a caneta que eu recebi aqui no trabalho já chegou não funcionando).

“Então mudemos os procedimentos de modo a deixá-los iguais aos procedimentos mais eficientes”

Não é tão fácil. O problema é que a eficiência dos procedimentos depende do contexto específico em que ele será realizado. E quem mais tem informações sobre o contexto em que se encontra (de modo a poder escolher o melhor procedimento) é o gestor lá na ponta. Daí a idéia de dar flexibilidade pro camarada. O cartão corporativo foi criado justamente para ser utilizado em contextos para os quais a Lei de Licitação não permite que um bom resultado seja alcançado.

O problema é que ninguém é santo nesta história. Se há maior flexibilidade para gastar o dinheiro adequadamente, também haverá maior flexibilidade para fazê-lo de forma inadequada. O controle socia com certeza poderia ajudar a coibir este tipo de coisa. E percebam que as informações estão disponíveis para o cidadão! Naturalmente, vigiar a administração pública é um bem público, e cada agente tem um puta incentivo para deixar que os outros façam isto por ele. O resultado: o bem não é provido ou é provido em quantidades sub-ótimas.

Seria Lula um keynesiano?

segunda-feira, 27 \27\UTC abril \27\UTC 2009

A resposta é: depende.

Se por keynesianismo entendermos a proposição de que o governo deve suavizar o ciclo de negócios, poupando nos tempos de bonança e gastando nos tempos de tormenta, então parece que nosso governo não é keynesiano.

 

Diferença entre a razão "Balanço do Governo Geral / PIB" de 2009 e 2008

Diferença entre a razão "Balanço do Governo Geral / PIB" de 2009 e 2008

Se por keynesianismo entendermos aquela proposição estranha de que o governo deve incorrer em déficits sistemáticos para tentar manter a economia sempre aquecida, bom, aí pode ser.

 

Balanço Geral do Governo / PIB : 2008 e 2009

Balanço Geral do Governo / PIB : 2008 e 2009

As figuras acima vêm desta apresentação do Banco Central do Brasil, que, por sinal, está muito bacana.

Debates interessantes

sexta-feira, 24 \24\UTC abril \24\UTC 2009

Intelligence²

Economia da esmola

quinta-feira, 16 \16\UTC abril \16\UTC 2009

Há poucos dias, recebi um e-mail que trazia uma estimativa do rendimento mensal de um mendigo (hat tip : Dany). Parece que essa estimativa chegou a circular bastante na internet, deixando muita gente surpresa (para não dizer outra coisa) com o possível rendimento do mendigo. 

A conta era a seguinte: 

  • Um semáforo fica vermelho em média 30 segundos a cada minuto.
  • Suponha que em cada parada, o pedinte consiga 10 centavos. Então em uma hora ele ganha (0,1 reais)*(60 minutos) = 6 reais / hora.  
  • Se o cara trabalhar 8 horas por dia e 25 dias por mês então ele ganha (6 reais/hora) * (8 horas) * (25 dias/mês) = 1200 reais/mês.

Interessante não?

Na minha opinião, este valor de 6 reais por hora está beeeeeem superestimado. Quando eu levei o trote na Matemática Computacional, tive que pedir dinheiro no sinal e consegui uns R$ 4,50 em uns 40-60 minutos (perdi a noção do tempo). Se eu fosse chutar alguma coisa, eu diria que este valor que eu consegui seria uma espécie de limite superior para o quanto os mendigos conseguem por hora. A mendicância é infelizmente um fenômeno banal: todo dia você vê (sem necessariamente notar) uma dezena de mendigos, mas não é todo dia que você vê um calouro, completamente sujo de tinta, pedindo dinheiro no sinal.

Sem cotar o fato de que dar esmolas é uma questão polêmica. Em que medida ela ajuda o mendigo a sobreviver, ou seja, é usada para comprar comida e não drogas? Em que medida ela dá incentivos para que o cara não tente arrumar alguma coisa melhor?

Só para finalizar, quero endossar a proposta do Marcos Castro. É comum ver uns meninos no sinal fazendo malabarismo para tentar te convencer a dar uma grana pra eles. Da próxima vez que algum pedir dinheiro a você desta maneira, pergunte “Me diga aí, quanto que é 3×5 ?”. Com um pouco de sorte, ao invés de aprender a fazer malabarismo com duas bolinas, eles aprendem um pouco de matemática. Com um pouco mais de sorte ainda, no futuro eles estarão respondendo a perguntas do tipo “Qual é o fatorial de 9?”.

Conjuntura Econômica de Minas Gerais

terça-feira, 14 \14\UTC abril \14\UTC 2009

Faço o jabá do trabalho (do qual participei).

A proposta é que o boletim de conjuntura econômica do estado seja divulgado com periodicidade trimestral.

ps: Outra análise dos impactos da crise sobre a economia do estado aqui.

Valor que se valoriza

segunda-feira, 13 \13\UTC abril \13\UTC 2009

Se o capital é valor que se valoriza, os momentos em que ele desvaloriza o valor existente de maneira inevitável, comprometendo assim a base de seu crescimento, são momentos em que ele mesmo se contradiz, negando as condições de sua existência.

Vamos lá. De acordo com a lógica, as expressões (p → q) e (~q → ~p) são tautologias, ou seja, sempre têm o mesmo valor de verdade. Desta forma, se quisermos verificar se (p → q) é verdade, podemos verificar se (~q → ~p) é verdade. Se a segunda proposição for falsa, também o será a primeira.

Vejamos se faz sentido definirmos “capital” como “valor que se valoriza”. Se a definição vale, então “valor que não se valoriza” não pode ser considerado “capital”.

Observem que se eu tiver uma fábrica e ela estiver dando prejuízo, ela não poderá ser considerada capital, já que minha taxa de retorno é negativa. Há apenas depreciação das máquinas. Eu não poderia nem ser chamado de capitalista.

Sabemos que o preços de ações oscilam muito. Desta forma, uma ação pode ser capital agora, deixar de ser em dois minutos e voltar a ser logo em seguida.  É, não é, é, ad infinitum. 

Parece razoável concluir que a definição é ruim. Não é o capital que se contradiz, nem o capitalismo. A contradição é dizer que (p → q) é verdade e ao mesmo tempo sustentar que (~q → ~p) é mentira.

Procurando material bacana para estudar?

sexta-feira, 10 \10\UTC abril \10\UTC 2009

MIT Open Courseware

Recomendo fortemente.

Imposto sindical

quinta-feira, 09 \09\UTC abril \09\UTC 2009

Este mês, tive pela primeira vez que pagar o tal imposto sindical. Nem me lembrava da existência dessa tosqueira, até ver meu contracheque. Não sou sindicalizado e nem tenho lá muita simpatia por sindicatos, mas passaram a mão no meu dinheiro mesmo assim. Maravilha.

Entendo a natureza de “bem público” do trabalho dos sindicatos, na medida em que, quando conseguem negociar um aumento pra categoria, não são apenas os caras sindicalizados que recebem o aumento. Todos recebem. Tem-se de largada um problema de ação coletiva, e existem bons incentivos para ser o caroneiro. A contribuição sindical acabaria com este problema.

Por outro lado, fica a pergunta:  Pessoas que não gostam de sindicatos, não apoiam seus movimementos, sua ideologia, etc e tal, deveriam ser obrigadas a financiar suas operações? Para mim, a resposta é  um grande não. Eu não quero pagar pros caras ficarem organizando greves para lutar por distorções estranhas no mercado de trabalho.

Penso que um acordo de cavalheiros poderia passar pela concessão do direito de escolha a cada trabalhador, de contribuir ou não. Por outro lado, a opção defaut seria contribuir, e caso alguém quisesse não fazê-lo, teria que ir lá e pedir pra sair. Na linha do paternalismo libertário.

Crenças, verdade e poder

domingo, 05 \05\UTC abril \05\UTC 2009

A resposta para a pergunta do post anterior é: Friedrich Engels, em carta a Vera Sassoulitch. Curioso, não? Assim, descontextualizado, o trecho parece bem anti-revolucionário. Não sei o contexto, encontrei-o em Auto-engano, de Eduardo Gianetti, livro que recomendo fortemente.

………………

Acreditar em si mesmo é uma condição necessária para que o homem almeje e consiga alcançar alguma coisa na vida pública (por exemplo, política). Almejar porque se ele não estiver convicto de si e de suas crenças, não encontrará a motivação necessária para pagar os custos da empreitada. Conseguir porque as pessoas que não acreditam fortemente em si e em suas crenças têm maior dificuldade em convencer outras pessoas de que a sua causa é a certa. O bom mentiroso é aquele que acredita em sua própria mentira.

Por outro lado, crenças podem, e normalmente são, obstáculos para buscar a verdade. Isso porque resistimos em dar o devido crédito a argumentos que vão de encontro ao que acreditamos. A luz da crença, ao mesmo tempo que nos aquece, nos cega.

Se é assim, então o mais provável é que as pessoas que estão por aí advogando causas na vida pública estejam cegas. Não que elas estejam necessariamente erradas, mas cegas. Normalmente, é impossível discutir honestamente com outras pessoas acerca de coisas que lhe são caras.

Por fim, como não podemos conhecer a verdade a priori (possivelmente nem mesmo a posteriori), e como temos uma tendência a acharmos que conhecemos a verdade, é necessário limitar o poder das pessoas de imporem a sua verdade sobre os outros, mesmo que ao cabo a sua verdade seja *a verdade*.