A venda

Luís: Você não pode fazer isso, pai!

Fernando: Porque não? A padaria está no vermelho há muito tempo…

Luís: Ela é patrimônio da família…o senhor está destruindo o nosso patrimônio!

Fernando: Não estou destruindo nada. Se por um lado perdemos a padaria, por outro ficamos com o dinheiro. O patrimônio permanece o mesmo…

Luís: Mas sem a padaria, de onde tiraremos o nosso ganha-pão? O pão nosso de cada dia? A padaria é um recurso estratégico! Você está vendendo a chance de nos tornarmos uma família com um elevado padrão de vida. Você está vendendo nossas esperanças!

Fernando: Eu já disse que a padaria estava no vermelho, menino! E não é de agora. Admito, eu não sou capaz de administrar a padaria de forma eficiente. Não sei lidar nem com os funcionários, nem com os fornecedores, nem com os clientes. O tempo que eu dedicava à padaria eu posso agora usar para trabalhar com outras coisas…

Luís: Isto é tudo mentira! Se a padaria é tão mau negócio assim, porque alguém a compraria?!

Fernando: Eu é que não tenho jeito para a coisa, mas o Manuel t…

Luís: Manuel? Manuel! Logo aquele português desgraçado? Pronto, era só o que faltava, estamos vendendo nosso patrimônio para o estrangeiro. Isso é entreguismo! É a volta ao colonialismo!

Fernando: Ah, agora eu entendi do que se trata… Você não está realmente preocupado conosco, e sim com a sua ideologia barata.

Luís: Não fuja do assunto! O que faremos quando o português aumentar o preço do pãozinho? E você sabe que ele é ciumento, vou ter que parar de pegar a filha dele, ou teremos nosso fornecimento matutino cortado. Eu te disse que a padaria era estratégica, porra!

Fernando: Você está delirando! Há muitas outras padarias neste mundo.

Luís: Quanto é que o gringo está te pagando, heim?

Fernando: Ah menino, chega, isto não é mais da sua conta!

Luís: Viu!? Falta transparência nesta família! Nem fomos consultados sobre a venda da padaria. Deveria ter sido feito um plebiscito!

Fernando: Plebiscito? Você está louco, sua mãe já morreu, somos só nós dois nesta merda de família. Me diga, eu precisaria de cinqüenta por cento mais um dos votos válidos? Quer saber do dinheiro? Tudo bem. Estou vendendo por R$20 mil reais.

Luís: Você está vendendo a padaria a preço de banana! Quanto você está ganhando por fora para vendê-la, heim? Você vai é esconder a grana da propina, só para não dividi-la com a família, não é, seu safado!

Fernando: Olha essa boca para falar comigo, moleque! Já falei para deixar de bobagem, não tem nada escondido. Eu vou pegar este dinheiro e pagar as dívidas, só. A taxa de juros é maior que a taxa de retorno da padaria, por isto a estou vendendo.

Luís:  Eu já te falei que deveríamos declarar moratória contra esses banqueiros gananciosos.

Fernando: Ah, chega! Vá já para o seu quarto, e não saia de lá até amanhã!

Luís: Vai me reprimir agora, né? Seu neoliberal fascista!

Fernando: Você ao menos sabe o que estas palavras significam!?

Luís: Lálálálá..(fechando a porta)

No outro dia, uma faixa havia sido colocada na porta da casa dos dois. Nela lia-se: Fora FHZ!

…………………..

Agradeço ao bom e velho Pedro Palotti pela revisão do texto.

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2 Respostas to “A venda”

  1. Renato Byrro Says:

    hahahah
    muito bom!

  2. Pedro Sant'Anna Says:

    ahahah
    Muito bon mesmo!!!!!
    teve a manha

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