Archive for março \24\UTC 2009

Egoísmo

terça-feira, 24 \24\UTC março \24\UTC 2009

“Selfishness is not living as one wishes to live, it is asking others to live as one wishes to live.”

                                                                              Oscar Wilde

Este aforismo foi a minha ‘sorte do dia’ do orkut de hoje. Foi realmente uma sorte notar este pensamento, mas bom mesmo seria se esta fosse a sorte do dia de todos aqueles que querem dizer aos outros como viver.

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Caderneta de poupança e taxa de juros no Brasil

quarta-feira, 18 \18\UTC março \18\UTC 2009

 A caderneta de poupança é uma aplicação de risco muito baixo, sendo ainda garantida pelo governo (até certo valor). Sua remuneração é fixada em 6% mais a Taxa Referencial. Suponha que esta remuneração seja artificialmente alta, ou seja, maior do que a que seria paga se não houvesse regulamentação.  Então, como a demanda por uma aplicação financeira por parte de um agente depende da remuneração e do risco desta aplicação, bem como da remuneração e do risco das demais, a alta taxa de juros paga pela caderneta de poupança induziria taxas de juros ainda maiores em outras aplicações. Este problema é ainda potencializado pelo fato de que boa parte dos recursos aplicados em cadernetas de poupança devem obrigatoriamente serem usados para fiananciar habitação e saneamento, gerando escassez de recursos para outras áreas.

O governo reconhece isto e estuda mudar as regras de rentabilidade da poupança.  Mas eu fico pensando: não seria melhor desregulamentar tudo isto? Os ganhos sociais, se existirem, realmente compensam as distorções alocativas que são geradas no mercado de crédito?

BRIC, crise e jornalismo econômico

quarta-feira, 11 \11\UTC março \11\UTC 2009

Do G1: “Recuo do PIB brasileiro é o pior entre os BRICS, diz ONU”

Segundo a notícia, o Brasil apresentou queda de 3,6% no quarto trimestre, em relação ao terceiro, e se esta taxa for anaualizada a queda chega a 13,6%.  A China teria crescido 6,5% e a Índia 5,3%, anualizadado. O crescimento previsto para a Rússia seria de 2%.

Na verdade, a comparação foi bem estranha. Enquanto a queda de 3,6% no Brasil foi em realção ao terceiro trimestre, os dados da China e da Índia referem-se à comparação com o mesmo período do ano passado, como pode ser conferido aqui e aqui (y/y significa em relação ao mesmo período do ano anterior).

Se usarmos o mesmo padrão de comparação (y/y) para o Brasil, vemos que o resultado do país no quarto trimestre foi de 1,3%. De fato, menor do que o da China e da Índia, mas longe de ser aquela catástrofe. 

E a Rússia? O dado mais atualizado no Dismal Scientist é do terceiro trimestre de 2008, então resolvi ir lá no site oficial do Instituto de Estatística Russo. Não encontrei dados referentes ao PIB, mas o índice deles de  bens e serviços aponta queda de 2,7% no quarto trimestre (y/y). E este relatório do Markit diz que a PIB russo cresceu 1,1% no quarto trimestre. Ou seja, ao menos a Russia deve estar pior que o Brasil.

Lula e a tal política anti-cíclica

terça-feira, 10 \10\UTC março \10\UTC 2009

Nosso presidente (ou seu ghost writer), hoje, no Financial Times:

But, above all, I hope for a world free of the economic dogmas that invaded the thinking of many and were presented as absolute truths. Anti-cyclical policies must not be adopted only when a crisis is under way. Applied in advance – as they have been in Brazil – they can be the guarantors of a more just and democratic society.

Fica parecendo que os economistas que defendem políticas anti-cíclicas só o fazem durante períodos recessivos. Mas é justamente o contrário! Na bonança, governos em geral não se preocupam em utilizar a política fiscal de forma anti-cíclia, ou seja, poupando. Não, nestes períodos o gasto público cresce bem mais rápido que o PIB. Aí, quando a crise vem, o que eles fazem? Continuam gastando. 

Ao que eu me lembre, os dogmas econômicos (que não invadiram o pensar de muitos) alertavam justamente para o caráter fortemente pró-cíclico dos gastos do governo…

ps: Política anti-cílica garantem sociedades mais justas e democráticas? O que nosso presidente entende por política anti-cíclica?

A venda

terça-feira, 03 \03\UTC março \03\UTC 2009

Luís: Você não pode fazer isso, pai!

Fernando: Porque não? A padaria está no vermelho há muito tempo…

Luís: Ela é patrimônio da família…o senhor está destruindo o nosso patrimônio!

Fernando: Não estou destruindo nada. Se por um lado perdemos a padaria, por outro ficamos com o dinheiro. O patrimônio permanece o mesmo…

Luís: Mas sem a padaria, de onde tiraremos o nosso ganha-pão? O pão nosso de cada dia? A padaria é um recurso estratégico! Você está vendendo a chance de nos tornarmos uma família com um elevado padrão de vida. Você está vendendo nossas esperanças!

Fernando: Eu já disse que a padaria estava no vermelho, menino! E não é de agora. Admito, eu não sou capaz de administrar a padaria de forma eficiente. Não sei lidar nem com os funcionários, nem com os fornecedores, nem com os clientes. O tempo que eu dedicava à padaria eu posso agora usar para trabalhar com outras coisas…

Luís: Isto é tudo mentira! Se a padaria é tão mau negócio assim, porque alguém a compraria?!

Fernando: Eu é que não tenho jeito para a coisa, mas o Manuel t…

Luís: Manuel? Manuel! Logo aquele português desgraçado? Pronto, era só o que faltava, estamos vendendo nosso patrimônio para o estrangeiro. Isso é entreguismo! É a volta ao colonialismo!

Fernando: Ah, agora eu entendi do que se trata… Você não está realmente preocupado conosco, e sim com a sua ideologia barata.

Luís: Não fuja do assunto! O que faremos quando o português aumentar o preço do pãozinho? E você sabe que ele é ciumento, vou ter que parar de pegar a filha dele, ou teremos nosso fornecimento matutino cortado. Eu te disse que a padaria era estratégica, porra!

Fernando: Você está delirando! Há muitas outras padarias neste mundo.

Luís: Quanto é que o gringo está te pagando, heim?

Fernando: Ah menino, chega, isto não é mais da sua conta!

Luís: Viu!? Falta transparência nesta família! Nem fomos consultados sobre a venda da padaria. Deveria ter sido feito um plebiscito!

Fernando: Plebiscito? Você está louco, sua mãe já morreu, somos só nós dois nesta merda de família. Me diga, eu precisaria de cinqüenta por cento mais um dos votos válidos? Quer saber do dinheiro? Tudo bem. Estou vendendo por R$20 mil reais.

Luís: Você está vendendo a padaria a preço de banana! Quanto você está ganhando por fora para vendê-la, heim? Você vai é esconder a grana da propina, só para não dividi-la com a família, não é, seu safado!

Fernando: Olha essa boca para falar comigo, moleque! Já falei para deixar de bobagem, não tem nada escondido. Eu vou pegar este dinheiro e pagar as dívidas, só. A taxa de juros é maior que a taxa de retorno da padaria, por isto a estou vendendo.

Luís:  Eu já te falei que deveríamos declarar moratória contra esses banqueiros gananciosos.

Fernando: Ah, chega! Vá já para o seu quarto, e não saia de lá até amanhã!

Luís: Vai me reprimir agora, né? Seu neoliberal fascista!

Fernando: Você ao menos sabe o que estas palavras significam!?

Luís: Lálálálá..(fechando a porta)

No outro dia, uma faixa havia sido colocada na porta da casa dos dois. Nela lia-se: Fora FHZ!

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Agradeço ao bom e velho Pedro Palotti pela revisão do texto.