Eleições em BH e o futuro do Brasil

Em Belo Horizonte a disputa pela prefeitura foi em grande parte pautada pela rejeição aos candidatos. No primeiro turno, boa parte das pessoas votou contra o Lacerda, na tentativa de levar a eleição para o segundo turno. Muita gente não gostou da forma como a Aliança foi montada, priorizando mais os projetos políticos do atual prefeito e do governador do que qualquer outra coisa. Leonardo Quintão beneficiou-se disto, na medida em que é um candidato menos radical e mais carismático que a outra opção, Jô Moraes.

Quintão subiu rapidamente no final do primeiro turno, e confesso que após as apurações, fiquei imaginando que ele iria acabar ganhando o segundo turno. Isso porque a rejeição ao Lacerda era bem maior, até então, e pelo fato de que a coligação da Aliança já tinha tanto, mas tanto partido, que dificultaria bastante a costura de novos acordos (que secretarias, cargos, etc prometer?). 

O que eu não antecipei, por não conhecer o candidato, era que a rejeição do Quintão conseguiria ficar maior que a do Lacerda. Sua campanha foi vazia: “cuidá di genti” e “dá pra fazê”. E a medida que isto ficou claro, a estratégia dominante para as mesmas pessoas que a princípio lutaram para levar a campanha para o segundo turno passou a ser votar no que consideram dos males o menor.

A sensação que fica para as pessoas em geral é, pelo que eu percebo, de que esta foi uma das piores eleições em Belo Horizonte em muitos anos. Justamente porque não escolheu-se o melhor, mas o menos pior. Bem feito, agora esse pessoal sabe como eu me sinto em cada eleição.

Agora, o mais divertido é que esta foi uma eleição muito relevante e com certeza terá repercuções na política brasileira por um bom tempo. PSDB e PT tentaram uma aliança, fracassada qualquer que seja o resultado nas urnas. O que é uma pena, na minha opinião, porque estes partidos não são tão diferentes assim e grande parte da divergência entre eles não é substantiva. É só comparar os governos FHC e Lula. Como disse o Igor T. neste post do NPTO, uma aliança entre os dois partidos teria a vantagem de melhorar o PT, que ainda é um pouco grotesco. Basicamente, a ala mais radical terminaria de debandar-se do partido e este ficaria mais unido em torno de uma plataforma esquerdista mais moderna (a la Tony Blair?). Teríamos ainda a vantagem de não termos mais que ouvir que o PSDB é neo-liberal (quem me dera o fosse). E por fim, evidenciaria ainda mais a existência de um nicho político a ser preenchido por uma direita programática, não patrimonialista e, espero, liberal.

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4 Respostas to “Eleições em BH e o futuro do Brasil”

  1. Renato Byrro Says:

    Olá phCastro,
    Gostei das suas observações sobre as últimas eleições aqui em BH!… Realmente deixou a desejar em muitos, muitos aspectos!
    Mas eu discordo que tenha sido uma das piores eleições. Na verdade, considerei o desenrolar dos fatos até um sinal de amadurecimento do eleitor brasileiro. E, neste sentido, seria uma das melhores eleições!
    Veja só. Como você mesmo disse, a população rejeitou Lacerda pela forma como tentaram dominar a opinião pública e ‘enfiar guela abaixo’ as propostas da prefeitura anterior e do governo do estado. Mas a população não aceitou isso. A forma como Lacerda ‘perdeu’ no 1º turno foi um golpe político forte para o governador do estado, principalmente.
    E não acredito que uma parcela grande da população tenha tido o interesse de eleger Quintão no 1º turno, mas apenas de demonstrar sua rejeição ao Lacerda.
    No segundo turno, a virada que observamos comprova isso. Lacerda foi eleito. Por falta de opção, sim. Votamos no “menos pior”. Mas a população não ofereceu a credencial de um prefeito eleito no 1º turno com grande peso de votos, a legitimação de um político com grande aceitação popular.
    Um outro aspecto muito interessante foi onde ocorreu esta virada. Eu li um relatório com os percentuais de votos para cada candidato no 1º e no 2º turno, discriminados por região geográfica da cidade. Não houve modificação significativa na proporção de votos para Lacerda e Quintão, entre o 1º e o 2º turno, em nenhuma região, excluindo a Centro-Sul.
    Foram as classes A e B que protestaram no 1º turno e depois elegeram Lacerda; as que é esperado que tenham mais acesso à instrução e informação de qualidade.
    Na minha opinião o povo brasileiro não é burro, não gosta de político incompetente, corrupto ou safado. Apenas temos uma nação de ignorantes, excluídos dos meios de acesso a informação de qualidade, educação e conhecimento.
    O desafio que temos em mãos não são mudar as regras na política, fazer passeata, nem tentar prender políticos criminosos. Temos é de combater a ignorância, combater a desigualdade sócio-educacional que assola nosso país.
    Para se ter idéia, o IDH da região Centro-Sul de BH é maior que o da Noruega, que tem o maior IDH médio entre todos os países do mundo. Enquanto isso, muitos bairros na capital mineira têm IDH abaixo da Bolívia, que por sua vez é o pior da América Latina!
    Na minha opinião, não temos motivo para nos sentir sem esperanças, desanimados, em desalento. Pelo contrário, temos muito a fazer. Precisamos arregaçar as mangas e colocarmos a mente para funcionar. Falta, aos brasileiros que podem fazer algo melhor, começar a pensar!

  2. phcastro Says:

    Renato, eu concordo com seu comentário.

    Descontando o fato de que eu sentir falta de um político liberal, a última eleição não foi ruim e de fato mostra um amadurecimento da democracia. Assim como foi com a eleição do Lula (acho bobagem falar que o povo está sendo enganado, ou melhor, que ele esteja sendo especialmente enganado).

    A questão do Bolsa Família é emblemática. Eu concordo com o pessoal da Torre de Marfim que esta é uma política pública bem razoável; a grande parte da população votou no Lula por reconhecer isto também. Evidentemente que quem está se beneficiando da Bolsa vai votar no Lula (os pobres também são racionais), mas isto não quer dizer que o Lula tenha comprado a consciência de alguém (a não ser, muito talvez, a de vários congressistas).

  3. Renato Byrro Says:

    É, eu também penso assim sobre a transferência de renda do Estado. Só discordo do Bolsa Família a partir do momento que ele não exige nada do cidadão em troca. Isto acostuma muito mal as pessoas, e não muda o futuro delas…
    É bom lembrar que o Bolsa Família começou no governo FHC, com o nome de Bolsa Escola. Na época ele teve muito êxito em diminuir a evasão escolar, pois condicionava o pagamento do benefício ao estudo dos filhos da família. Este tipo de programa, ligado à educação e à construção de um futuro melhor, eu sou totalmente favorável.
    Alguns argumentavam: mas as escolas são péssimas. Eu costumava responder: antes uma criança numa péssima escola do que nas ruas, sem escola alguma…
    Um abraço!

  4. PT e PSDB são mesmo diferentes? « phCastro Says:

    […] para uma frase que sintetiza uma percepção que eu tenho há muitos anos, e que já expressei neste post. A respeito da dualidade PT / PSDB, o artigo cita uma frase do cientista político Rafael Cortez: […]

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