Kanitz, sobre o mercado

Recebi hoje por email este texto do Stephen Kanitz, e gostaria de comentar algumas coisas.

Eu confesso que eu nunca li Adam Smith, mas com base na crítica que é feita eu suponho que o Kanitz também não. Em que medida a “mão invisível” é incompátivel com o trabalho de administradores? O mercado ser capaz de produzir eficientemente bens que os invíduos valorizam não quer dizer que o padeiro não precise produzir pães, que o operário não precise trabalhar e tampouco que o administrador não precise administrar. Na verdade, os bens são produzidos por causa desssas pessoas: o mercado apenas dá os incentivos corretos para que isso aconteça.

Também não li Schumpeter, ou Keynes. Mas afirmar que o crescimento depende do “espírito animal” de empresários é bem diferente de afirmar que o crescimento SÓ depende dos empresários e que os administradores são inúteis.

Claro, posso estar enganado no sentido de que Smith, Schumpeter e Keynes realmente podem ter escrito que administradores são inúteis. Eu só gostaria de uma evidência disto.

E porque seria que a existência de empresas complexas falsearia a Escola de Chicago? Acho que um “chicago boy” simplismente diria que a existência de empresas complexas é apenas uma solução eficiente do mercado para problemas de custos de transação. Pelo menos é a resposta que eu daria.

Só mais uma observação. Kanitz também gosta de defender suas idéias contrapondo-se aos neoliberais, afinal, todo mundo sabe que os neoliberais estão sempre errados; logo ele está certo. Sempre que eu vejo essas coisas eu tenho vontade de invocar a Lei de FHC-Godwin, formulada pelo Philipe!

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6 Respostas to “Kanitz, sobre o mercado”

  1. Pedro Castro, em excelente momento « De Gustibus Non Est Disputandum Says:

    […] Pedro Castro, em excelente momento Junho 17, 2008 Posted by claudio in Uncategorized. Tags: blogosfera, Blogs de economia, jornalismo trackback Comentário crítico e bem ponderado sobre um artigo de famoso colunista. […]

  2. vnc Says:

    Guess what? O que Kanitz está certo e V. está errado! Sim, na teoria econômica tradicional (Arrow-Debreu, mercados (e contratos) completos) todas as transações econômicas são mediadas por preços. Não há razão nenhuma para haver nenhum mecanismo alternativo de alocação de recursos. Em particular, a Teoria de Equilíbrio Geral de Arrow e Debreu (1951) é incompatível com uma teoria bem formulada da firma. V. parece confundir o “padeiro produzir pão” (quase sic) com um mecanismo de alocação de recursos em que, por exemplo, autoridade importa (e que pode ser bom quando contratos são incompletos). Smith = Arrow Debreu, no sentido de estabelecer que todas as transações podem ser mediadas

  3. vnc Says:

    Perdão, faltou uma parte do texo,que segue abaixo

    “popdem ser mediadas por preços.

    PS1.: A propósito, o que são custos de transação (todo mundo gosta de citá-los… o que são?).
    PS2.: O Kanitz está certo é só uma implicação da Lei dos Grandes Números. Em algum instante, depois de inúmeros chutes, alguma bola entra no gol…

  4. Claudio Says:

    Meus caros,
    o artigo original é divertido e o comentário do vnc mais ainda. O comentário está certíssimo. A teoria econômica tradicional (Arrow & Debreu) não explica as firmas como o faz diversos trabalhos do … ARROW! Como diz o texto, as firmas não são explicadas pela escola de Chicago, mas o são pelo excelente trabalho de Ronald Coase, professor de … Chicago!!!!!
    Poderia continuar aqui indefinidamente, mas existe um erro de origem tanto no artigo original quanto no comentário que se refere a diferença entre um modelo científico e uma verdade revelada (ofertada pelas diferentes religiões). O comentarista disse tudo, o modelo de equilíbrio geral mostra que, na presença de mercados completos (e algumas outras hipóteses menos importantes), a alocação de recursos seria feita de forma eficiente e totalmente descentralizada pelas pessoas. Como os mercados não são completos, abre-se uma imensa agenda de pesquisa para analisar a alocação de recursos feita de forma outra que não através do mercado (que não existiria). Ou seja, é este modelo simples que nos mostra a extrema importância da incompletude dos mercados. Este é um dos resultados mais estupendos que podemos ter (na minha modesta opinião). É difícil ouvirmos nestes trópicos tristes alguém (que não um economista bem treinado) falar sobre o problema dos mercados incompletos. Estes bobos que temos por aí tendem a falar mal dos mercados de toda forma (“O MERCADO GEROU A SOGRA!!!!!!!”), mas não de sua incompletude.
    Agora, o desenvolvimento teórico posterior (completamente apaixonante), COM FORTÍSSIMA COLABORAÇÃO DE ARROW E DA ESCOLA DE CHICAGO, nos permitiu entender uma série de fenômenos relacionados a este problema crucial. Como desconhecer todos os avanços relacionados aos problemas de informação assimétrica que ocorreram?
    Por fim, custos de transação se referem a todos os recursos produtivos utilizados no processo produtivo não vinculados explicitamente à atividade produtiva, e sim à atividades de controle e monitoramento das transações. Se tívessemos mercados completos, estas atividades seriam geradas a custo zero pelo mercado. Como não os temos, todas as formas alternativas contratuais que observamos seriam maneiras de minimizar tais custos. Para o leitor interessado, eu sugiro ver “Economia de custos de transação”, ou “Modelo de agente-principal” ou (de forma mais consistente) “desenho de mecanismo” (prêmio Nobel ano passado). Impossível não colocar estas vertentes (dentre muitas outras) dentro da “teoria econômica tradicional”.
    Por fim, criticar Adam Smith? Cada um faz o que quer e critica quem quiser, mas criticá-lo por não antecipar resultados importantes de mais de 200 anos depois é dose para leão (e o Newton, hein? Aquele picareta. Não antecipou a integral de Lebesgue. Choquet então, ele nem pensou a respeito. Que picaretão.).
    Um grande abraço,
    Claudio
    PS: Existe uma idéia (não provada formalmente) muito forte em Chicago sobre a tendência das pessoas se organizarem para poderem gerar (e se apropriar) de todo excedente possível gerado pelas trocas. A idéia é que as pessoas gerariam contratos (formais ou informais) alternativos entre estas para driblar possíveis falhas de mercado. Círculos de solidariedade nas favelas seriam uma resposta eficiente à inexistência de mercado formal de seguros contra o desemprego. Flanelinhas seriam uma resposta social ótima para a questão dos roubos de carro (onde o que o assaltante ganha é bem menor do que a perda de quem é roubado). Pesquisadores de lá buscam exemplos testáveis deste tipo de situação (que geram artigos excelentes) no mundo todo. Um exemplo é o Townsend de 1994. Agora, me digam, não é ridículo este esteriótipo de uma “pseudo teoria econômica tradicional”?

  5. Philipe M. Says:

    Não teriam nada os economistas a dizer dos administradores? Não teriam esses nenhum papel? Uma dica de leitura é http://www.voxeu.org/index.php?q=node/775

  6. vnc Says:

    Meu comentário sobre o comentário do Cláudio (Shikida?):

    (i) Permita-me corrigi-lo. O fundamental para que exista algum tipo de mecanismo que envolva autoridade, direitos de controle residual e outras características relevantes do que se convenciona chamar por firma são contratos incompletos. Mercados incompletos geram, genericamente, alocações Pareto Ineficientes, o que, portanto, abre espaço para mecanismos alternativos ao mecanismo de preços (mas não algo que pareça com uma firma). No entanto, e de novo, algo com as caraceterísticas peculiares a uma firma (ou qualquer mecanismo como os que V. comenta em seu PS) só pode ocorre se os contratos forem incompletos.

    Com respeito ao ponto de “Estes bobos que temos por aí tendem a falar mal dos mercados de toda forma (”O MERCADO GEROU A SOGRA!!!!!!!”), mas não de sua incompletude” (sic), não sei se o entendo bem. Há uma diferença entre o conhecimento que temos a respeito de (i) resultados do tipo “Se, então” gerados por nossa teorias e (ii) a discussão factual e política acerca de determinadas instituições e políticas. Nossos conhecimento acerca de “Se, então” podem nos ajudar em (ii). No entanto, de maneira alguma, determina as perspectivas indivduais sobre se o Se (dos resultados Se, então) vigoram ou não. Essa é uma discussão quase de bar, a menos de testes da contrapositiva de “Se, então”, o que não parece ser sempre factível de ser feito. (Proposição: Se Deus não existe, tudo é permitdo” A discussão a respeito do Se é de bar. Há solução? V. acreditaria num teste do tipo: “Vejo que nem tudo é permitido, constato, portanto, que Deus existe”?)

    (ii) Nunca disse que não houve avanços e desenvolvimentos posteriores relevantes. No minímo, porque, por auto-interessado, não daria um tiro em meu pé (trabalho com Desenho de Mecanismo e Incentive Theory). Só disse que, pleo que li do comentário do anfitrião do blog, o Kanits estava certo e ele errado. Também não entendi o erro que V. aponta em meu comentário. Não fiz referência que lhe levassem a acreditar que não entendo “a diferença entre um modelo científico e uma verdade revelada verdades”.

    (iii) A terminologia é meio irrelevante, mas acho que faça sentido falar em Teoria Tradicional. Afinal de contas, é o que se vê, em qualquer programa de PhD decente no mundo, no primeiro curso de micro! A propósito, a teoria tradicional (ou devo chamá-la de Teoria de Micro I?) tem feitos avanços no tratamento de isntituições como a firma em seu arcabouço básico. Veja, por exemplo,o paper do Bill Zame na ediçaõ de Setembro de 2007 da Econometrica (Incentives, Contracts, and markets: A general equilibrium theory of firms). Parte do desafio da Teoria Tradicional e da Teoria Nova (na qual faço pesquisa) é combinar aspectos relevantes de ambas (ver, por exemplo, http://homepages.ulb.ac.be/~plegros/documents/PDF/discussion%20WC%20last.pdf). Um dos capítulos de minha tenta avançar nesse sentido, mas fracassa retumbantemente.

    (iii) Por fim, discordo de sua definição de custos de transação (e mais uma vez V. parece confundir incompletude de mercados com a discussão). Monitorarmento de, por exemplo, um trabalhador pode ser interpretado como um insumo no processo produtivo, não? Porque trata-se de um custo de transação?

    Check that out: A minha intrepretação de custos de transação é de que eles são definidos pelo Teorema de Coase. De outra forma, eu intrepreto o Teorema de Coase como definindo custos de transação: qualquer aspecto que impeça que barganha entrea as partes gere um resultado eficiente é um custo de transação. Hidden info can be one! Incompetude contratual também e por aí vai…

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