Na sexta passada, recebi um telefonema de uma jornalista do jornal o Tempo. Ela estava fazendo uma comparação entre os governos FHC e Lula e pediu que eu fizesse comentários. Tudo bem: acredito que uma das minhas funções na Fundação João Pinheiro é atender jornalistas (o pedido que eu o fizesse havia vindo da Assessoria de Comunicação social, inclusive).
Escrevo este texto apenas porque fiquei um pouco chateado com o resultado da entrevista. Pelo menos isso ressuscitou este blog.
A jornalista me disse que, pelo seu levantamento, os indicadores econômicos e sociais do governo Lula foram superiores aos do governo FHC. Confirmei. Ela então me perguntou se os bons resultados do governo petista deviam ser creditados a Lula ou a uma boa herança do governo anterior.
“A ambos”, disse, mais ou menos nessas palavras. “Uma explicação não exclui a outra. Lula teve o mérito de manter a política macroeconômica do governo FHC, estruturada sobre câmbio flexível, metas de inflação e metas de superávit primário. Na área social, o Bolsa Família deu uma amplitude maior aos programais sociais iniciados no governo anterior, contribuído para redução da desigualdade de renda.”
Na matéria, saiu apenas um:
O Bolsa Família deu uma amplitude maior aos programas sociais e alavancou o setor, afirma o economista da Fundação João Pinheiro Pedro Castro.
Não me lembro de dizer nada sobre alavancar setor. Repare que, no texto, nem fica claro qual é esse setor. Talvez seja o “setor” de assistência social, mas assistência social não é bem um setor econômico, pelo menos não na minha cabeça. De quebra, sou citado como economista. Eu não sou economista, e nem disse que era. Não me perguntaram. Se o fizesse, certamente responderia que sou um técnico da FJP, como já fiz outras vezes. Tudo bem, até posso conceder que a jornalista simplesmente assumiu que eu era um economista, dado o tema que discutíamos. Devemos nos lembrar que ela foi direcionada a mim pela Assessoria de Comunicação Social. Corecon, não precisa mandar o boleto de contribuição, tá!? Foi só um mal entendido.
Mal entendido que se repete logo em seguida:
Mas o professor ressalva que é um risco traçar um paralelo entre números frios, que, segundo ele, não levam em consideração a conjuntura dos dois períodos. “Tem que tomar muito cuidado com as comparações”, alerta.
Eu também não sou professor e não disse que era. No futuro, quem sabe? Sobre o conteúdo: eu, de fato, disse algo parecido (duvido que tenha usado o adjetivo frio). O problema é que o argumento foi eliminado do texto e o que sobrou é uma crítica meio vazia. Resumidamente: ela me perguntou se as inúmeras crises afetaram o desempenho do governo FHC e eu disse que sim (assim Lula foi afetado por esta crise agora), e que era importante avaliar o contexto. Além disso, disse que uma comparação entre FHC e Lula também deve levar em consideração o governo Collor/Itamar. A sua herança, para ser mais específico. A idéia é ver a diferença entre o Brasil que o FHC recebeu e o que ele deixou, e comparar isso com a diferença entre o Brasil que Lula recebeu e o que deixará.
Durante a entrevista, eu não fui apresentado a todas as comparações que estavam sendo feitas. Vejo-as agora, na matéria, e minha crítica faz ainda mais sentido. Por exemplo, a comparação #9 é sobre coleta de lixo. Enquanto em 2006 2,5% dos domicílios brasileiros não contavam com esse serviço, em 1996 esse número é de 12,5%. Ponto para Lula? Como devemos interpretar esse resultado? Não é preciso muito esforço para ver que se em 1990 essa taxa fosse de 40%, nossa interpretação sobre quem fez mais nessa área seria muito diferente do que seria se ela fosse de 15% nesse mesmo ano. E se FHC tivesse deixado o governo, em 2002, com uma taxa de domicílios sem coleta de lixo em 3%?
Eu não conheço esses números, e estou com preguiça de ir lá verificá-los. O meu ponto é, apenas, que a comparação não foi bem feita. Talvez dados para outros anos não estejam disponíveis, e a jornalista tenha feito o melhor possível. Ainda assim, as conclusões não são tão claras quanto podem parecer para o leitor incauto.
Tags: fhc, jornalismo, lula
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010 às 12:43 |
[...] tive, também falou, mas não gostou do resultado. A matéria está aqui. Pedro tece comentários aqui. [...]
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010 às 21:52 |
Muito complicado isso que você relata, mas, como é sabido, está longe de ser raro: http://www.smbc-comics.com/index.php?db=comics&id=1623
—
Foi mais ou menos pensando nesse tipo de comparação que escrevi um post no distante ano de 2006: http://tinyurl.com/pt-vs-psdb, mas teve gente que não entendeu bem a piada…
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010 às 7:15 |
Muito bom, ambos os links!
…
Philipe, não sei porque diabos seu comentário teve que ser aprovado por mim. Não está configurado para ser assim. Pelo menos é o que eu me lembro hehehe. Foi mal aí.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010 às 9:14 |
[...] phCastro Nem ácido, nem básico, nem neutro. « Lula x FHC: e eu com isso [...]