Acho que, genéricamente falando, ninguém discordaria que o que se espera de um aluno é que ele entenda a matéria, e não que ele a decore. Entenda “o que se espera” em termos normativos, e não positivos…
Se isso é verdade, então as provas não deviam cobrar decoreba, e sim estimular o raciocínio do aluno. Certo?
Mais ou menos. Há mais coisas entre o céu e a terra do que esta minha vã filosofia.
O problema maior, na minha opinião, é que uma prova não é intrínsecamente decoreba ou “inteligente”. O que ela é simplismente depende em grande parte de qual é a relação do aluno com a disciplina.
Por exemplo, em uma estrutura de mercado olipolística de Cournot o preço do bem tende ao custo marginal quando o número de firmas tende ao infinito. Em que medida é decoreba cobrar que o aluno demonstre matemáticamente esta relação? Um aluno que entende matemática e micro bem pode conseguir fazê-lo facilmente, enquanto outro que não entende tem que de fato decorar todos os passos da demonstração para conseguir replicá-la em uma prova.
Este pensamento pode ser replicado para qualquer outra matéria. Vamos à sociologia. Um conceito muito importante no pensamento de Durkheim é o de “fato social”. Um aluno que tem pela frente uma prova sobre Durkheim tem duas opções. Entender o que significa “fato social” ou decorar o que é e ficar repetindo isto igual papagaio.
Muitos alunos reclamam de provas decorebas. Eu mesmo não gosto. O problema é que o que é ou não “decore” é muito subjetivo. Na minhja opinião, a única forma de garantir que uma questão não é ‘decoreba” é cobrar do aluno algo que ele nunca viu na vida. Por exemplo, se o aluno aprendeu o que é um olipólio de Cournot mas nunca viu a demonstração que eu propus acima, aquela questão não é decoreba, mas irá forçar que o aluno pense. Ou, no caso da sociologia de Durkheim, cobrar uma questão que aplique o conceito de fato social e que não foi discutida em sala, ou nos livros, etc. Agora fica a pergunta: será que é isso que os alunos que reclamam de “provas decorebas” querem?